A igreja, mais uma família que uma instituição
Tomemos a palavra de Jesus, “edificarei a minha igreja”, em Mateus 16.18. Não teremos dificuldades em afirmar isto: a igreja é de Jesus. Mas teremos dificuldades em definir o que é igreja. Ela é de Jesus, mas o que ela é, exatamente?
DEFININDO TERMOS
O que entendemos por igreja?
Para alguns é um lugar aonde vamos. Na semântica teológica, esta afirmação é um erro. Nós não vamos à igreja. Nós somos a igreja. Nem vamos ao templo. Nós somos o templo. Vamos ao prédio onde a igreja se reúne.
A igreja é mais uma família que uma instituição. Ao dizer que ela é uma família, digo que é um grupo de pessoas. Ao dizer que é uma família, especifico que é a família de Jesus. Família que brotou ao pé da cruz. Pretendo mostrar com issso os perigos do institucionalismo, que é o engessamento da igreja, a colocação do conceito de igreja em formol, embalsamando-o. De todos, este é maior risco que a igreja enfrenta: ser apenas instituição e não ser relacionamentos pessoais.
O SURGIMENTO DA IGREJA COMO FAMÍLIA
Quando Jesus disse “desejei ardentemente comer esta páscoa convosco” (Lc 22.15) já delineou a igreja. A páscoa era uma cerimônia religiosa familiar. Ele já dissera que sua família eram os que ouviam a Palavra de Deus e a acatavam (Lc 12.46-50). Mas agora assume os doze como sua família.
Na cruz, Jesus confia sua mãe a João: “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua família” (Jo 19.25-27). A igreja é uma família que nasceu ao pé da cruz e a cruz inter-relaciona as pessoas.
Relacionamentos e pessoalidade estavam na essência da igreja. O relacionamento correto com Deus, crendo em Jesus como o Cristo de Deus, e relacionamento correto com as pessoas inseridas na comunidade. O final das cartas paulinas traz várias recomendações pessoais e há observações comoventes: “Priscila e Áquila… os quais pela minha vida expuseram as suas cabeças” (Rm 16.3,4), “Epêneto, meu amado” (Rm 16.5), “Ampliato, meu amado no Senhor” (Rm 16.8), e a declaração paulina em Romanos 16.13: “Saúdem Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que tem sido mãe também para mim”. E o que dizer do tocante testemunho de Paulo sobre Onesíforo? “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; ao contrário, quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar. Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor! Você sabe muito bem quantos serviços ele me prestou em Éfeso.“ (2Tm 16.18).
A igreja primitiva valorizava relacionamentos. Nós valorizamos programas e métodos. O mais importante na igreja, depois de Jesus Cristo, são as pessoas. Prestemos atenção neste episódio relatado em Marcos 3.1-3: “Noutra ocasião ele entrou na sinagoga, e estava ali um homem com uma das mãos atrofiada. Alguns deles estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado. Jesus disse ao homem da mão atrofiada: ‘Levante-se e venha para o meio’". Entendemos o que Marcos está mostrando? Para os fariseus, o sábado estava no centro de suas preocupações. Para Jesus, o homem. “Venha para o meio”, diz ele. Colocamos métodos, programas e doutrinas no centro, no meio. Jesus põe o homem. Não digo que métodos e doutrinas não sejam importantes. Digo que pessoas valem mais. Foi por pessoas que Cristo morreu na cruz. Foi gente, e não métodos, prédios ou instituições que ele comprou para Deus Pai: “e eles cantavam um cântico novo: ‘Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação’” (Ap 5.9).
Igreja não é instituição, prédio ou império econômico. Igreja é gente. Gente pela qual Cristo morreu, gente que ele inter-relacionou, em laços de família. A igreja surge como família na forma em que Jesus a encaminhou e na forma como os cristãos se relacionavam. Gravemos isto: o que há de mais importante em nossas igrejas, depois de Jesus, são as pessoas.
PR.ERIVAN JOSE DE ARAUJO
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